Palavras que eu nunca disse
E eu, que achava que te conhecia tão bem.
Olhe pra trás. Sinta um pouco de remorso. Tente ser nada mais que um humano. Diga que quer voltar. Que sente muito. Que tem vontade de jogar tudo pro alto e ser outra vez meu perfeito saquinho de pancadas.
E se eu dissesse que ainda te espero? E que, apesar da dor que você me fez sentir, eu seria capaz de reviver cada momento? Você voltaria? Você viveria para sempre comigo, mesmo que o pra sempre só exista em contos de fadas? Será que, outra vez, você seria o meu mundo?
Eu acho que não. Eu acho que não...
Se ao menos você pudesse lembrar dos nossos sonhos bobos e promessas infundadas... se pudesse aceitar que eu nunca vou poder ser quem você quer que eu seja, nem quem você merece que eu seja... se, ao ouvir o farfalhar do vento sussurrando ao longe, você lembrasse do meu próprio murmúrio afirmando centenas de vezes que nunca houve outro que me fizesse rir tão alto...
Então, meu amor - então você perceberia que ninguém, nunca, poderia amar você como eu amei.
E, talvez, o outono seria uma época feliz outra vez.
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Em frente, enfrente.
Em todos os dias da minha vida, eu vivi.
Vivi dias e noites, verões e invernos, amores e ódios. Vivi o murmúrio do vento nas árvores, o sorriso do sol, o doce cheiro da chuva. Vivi gritos desesperados, lágrimas salgadas, sangue fluindo. Vivi o milagre de ser.
Descobri a maravilha do perdão, a sutileza de um sorriso e o conforto de um abraço. Aprendi a delicada arte da frieza, o lento aperfeiçoamento da ironia; a fingir que não me importo. E, muitas vezes, não me importar mesmo.
Desejei o mal e o bem. Vaiei e aplaudi.
Gritei e chorei quando tive vontade. Menti, e você não sabe o quanto. Em gritos ou em sussurros, eu disse o que sentia. Com lágrimas ou com risos, eu mostrei a fragilidade infantil escondida por trás da fortaleza que cobria meu rosto.
E amei.
E amei você, mais do que devia.
A vida me fez forte, mas nada me impediu de cair. Agora, outra vez, eu vou me reerguer. E outra vez, e mais uma; e quantas mais? Quantas vezes cair, até alcançar a batalha final entre viver e existir?
Eu estou pronta. Pode começar a contar.
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Os meus sete pecados capitais
1. Você.
2. Você.
3. Você.
4. Você.
5. Você.
6. Você.
7. Você.
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Lembranças
Hoje eu lembrei de você, de novo. E veja bem, era teste de Física. Física. Você tem noção disso? Você está arruinando minha vida acadêmica, garoto.
Mas lembrei de tudo mesmo: de como você ri engraçado, do jeito muito seu de fazer caretas, das besteiras que você diz só pelo prazer de dizer. E de quando você soltou um terrível "legal" pra garota que disse que te amava, lembra? Tudo bem. Você não combinava com ela. Você combina comigo.
E quando você ficou com medo dos fantasmas e quis sair correndo! Eu fiquei com medo também. Eu não queria que você fosse embora. Eu não quero que você vá embora agora, tampouco.
Lembrei do seu sorriso tímido. E do seu calombo estranho no peito. E das muitas vezes que você ligava pra perguntar se eu tinha visto as salsichas; e sempre ficava irritado quando eu respondia que não só tinha visto, como comera todas. Era mentira. Eu só queria ver como você ficava ainda mais incrivelmente lindo nervoso.
Eu também me apercebi de detalhes valiosos. Você sabia que tem uma pintinha no cotovelo? E que quando sorri, seus olhos sorriem junto? E que você faz cara de paisagem quando não está entendendo nada?
Eu posso fechar os olhos agora e te ver de todos os ângulos, em todas as situações possíveis. Posso te imaginar e te desenhar na minha cabeça, e sentir seu cheiro, e quase tocar o seu cabelo.
Eu poderia viver só pensando em você. Eu não reclamaria.
E afinal, qual é o propósito de viver, se não for por você?
Mas lembrei de tudo mesmo: de como você ri engraçado, do jeito muito seu de fazer caretas, das besteiras que você diz só pelo prazer de dizer. E de quando você soltou um terrível "legal" pra garota que disse que te amava, lembra? Tudo bem. Você não combinava com ela. Você combina comigo.
E quando você ficou com medo dos fantasmas e quis sair correndo! Eu fiquei com medo também. Eu não queria que você fosse embora. Eu não quero que você vá embora agora, tampouco.
Lembrei do seu sorriso tímido. E do seu calombo estranho no peito. E das muitas vezes que você ligava pra perguntar se eu tinha visto as salsichas; e sempre ficava irritado quando eu respondia que não só tinha visto, como comera todas. Era mentira. Eu só queria ver como você ficava ainda mais incrivelmente lindo nervoso.
Eu também me apercebi de detalhes valiosos. Você sabia que tem uma pintinha no cotovelo? E que quando sorri, seus olhos sorriem junto? E que você faz cara de paisagem quando não está entendendo nada?
Eu posso fechar os olhos agora e te ver de todos os ângulos, em todas as situações possíveis. Posso te imaginar e te desenhar na minha cabeça, e sentir seu cheiro, e quase tocar o seu cabelo.
Eu poderia viver só pensando em você. Eu não reclamaria.
E afinal, qual é o propósito de viver, se não for por você?
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Short story
Aquele era o seu dia.
Tinha perdido o celular, a carteira de identidade, um diamante negro recém comprado e algumas moedas que não vieram no troco. Sentada na calçada, fones gritando no ouvido, tênis sujos de lama, cabelos desgrenhados, ela fingia pra si mesma que mantinha uma séria conversa com seu furão fêmea. Estava prestes a perguntar "mas me diga, Zukia: você roubou ou não meu chocolate?", quando um grupo de estudantes passou fazendo bagunça do outro lado da rua. Ela sabia que estavam fazendo uma grande bagunça mesmo, porque podia ouvir os gritos mesmo com o volume do mp4 cansado no máximo.
Que bobos, ela pensou, sentindo um súbito orgulho por sua maturidade. Depois lembrou de como deveria estar parecendo, o esmalte descascando e delineador absurdamente borrado. Zukia lançou um olhar severo à dona, como se estivesse pensando a mesma coisa - especialmente porque estava deitada sobre um jeans muito sujo e surrado, que obviamente não estava à sua altura. A garota não deu muita atenção. "Desculpe, amor", ela murmurou, "mas hoje não é o seu dia." Depois começou a cantar (muito desafinada, é bom que se diga), de forma que nunca viu a cara de horrorizada de Zukia.
A música se encaixa muito bem, ela pensou distraidamente. Apropriada. É essa a palavra.
Um fumante acabara de passar. Ela o olhou, meio admirada, meio contrafeita. Admirada porque ele parecia a figura mais sedutora e inteligente do mundo fumando. Contrafeita porque nunca gostou de fumaça. E quem gosta, afinal?
Agora uma grávida. Nunca terei filhos. Vou ser uma pessoa inteligente e usar pílulas e camisinhas. Arranco meu útero, se necessário. Pensou tudo isso porque a barriga dela estava muito grande. Depois achou que um só seria legal. Ou gêmeos. Gêmeos com ele seriam lindos. Uma menina e um menino. Ela com os cabelos dele e os meus olhos; ele com os meus cabelos e os olhos dele. E os dois com bochechinhas vermelhas. Alice é um nome legal. Charlie, também. E ela vai se vestir como uma mini rockstar, e ele, como o meninão que o pai é. Então percebeu que tudo que estava falando era uma grande besteira, porque ela nunca seria mãe mesmo.
E por um longo tempo nada de muito interessante aconteceu, exceto que um cachorrão tentou latir para Zukia, e ela saiu correndo atrás dele e o perseguiu por vários minutos. Doida de pedra, a garota pensou. Zukia olhou para ela como se dissesse "Aprendi com você", mas, de novo, não surtiu muito efeito.
Agora era ele que passava, e, por um segundo, ela tentou sumir - mas, de que adiantaria, mesmo que eu conseguisse? É o que eu quero. Quero vê-lo. Quero que ele me veja também. Então, que diabos estou tentando fazer?
Bom, ele olhou, de qualquer forma. E pareceu tentar sumir, também. Não tendo muito mais sucesso que ela, sorriu minimamente. Caminhou até a calçada com passos tímidos e sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio, os dois fitando Zukia, que parecia achar muita graça na situação. Para ser justa, acho que também estaria rindo. Bem! Não estamos indo a lugar algum. Acho que seria melhor que eu falasse. Talvez algo como "Oi". "Oi" definitivamente funcionaria. É o que vou fazer. Um, dois, três.
Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Onze, doze - ah, não seja estúpida agora. Certo. Assim que eu disser "já". Então, um, dois...
Saiu antes. "Oi." Ele olhou meio surpreso. Permaneceu quieto. Ela tentou imaginar se seu "Oi" saíra com uma entonação errada, mas parecia muito certo. Sentiu o rosto arder e olhou para Zukia outra vez. E demorou muito tempo para assimilar o que ele disse depois disso.
"Eu também gosto de você."
Porque aquele era o dia dele, afinal.
Tinha perdido o celular, a carteira de identidade, um diamante negro recém comprado e algumas moedas que não vieram no troco. Sentada na calçada, fones gritando no ouvido, tênis sujos de lama, cabelos desgrenhados, ela fingia pra si mesma que mantinha uma séria conversa com seu furão fêmea. Estava prestes a perguntar "mas me diga, Zukia: você roubou ou não meu chocolate?", quando um grupo de estudantes passou fazendo bagunça do outro lado da rua. Ela sabia que estavam fazendo uma grande bagunça mesmo, porque podia ouvir os gritos mesmo com o volume do mp4 cansado no máximo.
Que bobos, ela pensou, sentindo um súbito orgulho por sua maturidade. Depois lembrou de como deveria estar parecendo, o esmalte descascando e delineador absurdamente borrado. Zukia lançou um olhar severo à dona, como se estivesse pensando a mesma coisa - especialmente porque estava deitada sobre um jeans muito sujo e surrado, que obviamente não estava à sua altura. A garota não deu muita atenção. "Desculpe, amor", ela murmurou, "mas hoje não é o seu dia." Depois começou a cantar (muito desafinada, é bom que se diga), de forma que nunca viu a cara de horrorizada de Zukia.
A música se encaixa muito bem, ela pensou distraidamente. Apropriada. É essa a palavra.
Um fumante acabara de passar. Ela o olhou, meio admirada, meio contrafeita. Admirada porque ele parecia a figura mais sedutora e inteligente do mundo fumando. Contrafeita porque nunca gostou de fumaça. E quem gosta, afinal?
Agora uma grávida. Nunca terei filhos. Vou ser uma pessoa inteligente e usar pílulas e camisinhas. Arranco meu útero, se necessário. Pensou tudo isso porque a barriga dela estava muito grande. Depois achou que um só seria legal. Ou gêmeos. Gêmeos com ele seriam lindos. Uma menina e um menino. Ela com os cabelos dele e os meus olhos; ele com os meus cabelos e os olhos dele. E os dois com bochechinhas vermelhas. Alice é um nome legal. Charlie, também. E ela vai se vestir como uma mini rockstar, e ele, como o meninão que o pai é. Então percebeu que tudo que estava falando era uma grande besteira, porque ela nunca seria mãe mesmo.
E por um longo tempo nada de muito interessante aconteceu, exceto que um cachorrão tentou latir para Zukia, e ela saiu correndo atrás dele e o perseguiu por vários minutos. Doida de pedra, a garota pensou. Zukia olhou para ela como se dissesse "Aprendi com você", mas, de novo, não surtiu muito efeito.
Agora era ele que passava, e, por um segundo, ela tentou sumir - mas, de que adiantaria, mesmo que eu conseguisse? É o que eu quero. Quero vê-lo. Quero que ele me veja também. Então, que diabos estou tentando fazer?
Bom, ele olhou, de qualquer forma. E pareceu tentar sumir, também. Não tendo muito mais sucesso que ela, sorriu minimamente. Caminhou até a calçada com passos tímidos e sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio, os dois fitando Zukia, que parecia achar muita graça na situação. Para ser justa, acho que também estaria rindo. Bem! Não estamos indo a lugar algum. Acho que seria melhor que eu falasse. Talvez algo como "Oi". "Oi" definitivamente funcionaria. É o que vou fazer. Um, dois, três.
Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Onze, doze - ah, não seja estúpida agora. Certo. Assim que eu disser "já". Então, um, dois...
Saiu antes. "Oi." Ele olhou meio surpreso. Permaneceu quieto. Ela tentou imaginar se seu "Oi" saíra com uma entonação errada, mas parecia muito certo. Sentiu o rosto arder e olhou para Zukia outra vez. E demorou muito tempo para assimilar o que ele disse depois disso.
"Eu também gosto de você."
Porque aquele era o dia dele, afinal.
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