Short story
Aquele era o seu dia.
Tinha perdido o celular, a carteira de identidade, um diamante negro recém comprado e algumas moedas que não vieram no troco. Sentada na calçada, fones gritando no ouvido, tênis sujos de lama, cabelos desgrenhados, ela fingia pra si mesma que mantinha uma séria conversa com seu furão fêmea. Estava prestes a perguntar "mas me diga, Zukia: você roubou ou não meu chocolate?", quando um grupo de estudantes passou fazendo bagunça do outro lado da rua. Ela sabia que estavam fazendo uma grande bagunça mesmo, porque podia ouvir os gritos mesmo com o volume do mp4 cansado no máximo.
Que bobos, ela pensou, sentindo um súbito orgulho por sua maturidade. Depois lembrou de como deveria estar parecendo, o esmalte descascando e delineador absurdamente borrado. Zukia lançou um olhar severo à dona, como se estivesse pensando a mesma coisa - especialmente porque estava deitada sobre um jeans muito sujo e surrado, que obviamente não estava à sua altura. A garota não deu muita atenção. "Desculpe, amor", ela murmurou, "mas hoje não é o seu dia." Depois começou a cantar (muito desafinada, é bom que se diga), de forma que nunca viu a cara de horrorizada de Zukia.
A música se encaixa muito bem, ela pensou distraidamente. Apropriada. É essa a palavra.
Um fumante acabara de passar. Ela o olhou, meio admirada, meio contrafeita. Admirada porque ele parecia a figura mais sedutora e inteligente do mundo fumando. Contrafeita porque nunca gostou de fumaça. E quem gosta, afinal?
Agora uma grávida. Nunca terei filhos. Vou ser uma pessoa inteligente e usar pílulas e camisinhas. Arranco meu útero, se necessário. Pensou tudo isso porque a barriga dela estava muito grande. Depois achou que um só seria legal. Ou gêmeos. Gêmeos com ele seriam lindos. Uma menina e um menino. Ela com os cabelos dele e os meus olhos; ele com os meus cabelos e os olhos dele. E os dois com bochechinhas vermelhas. Alice é um nome legal. Charlie, também. E ela vai se vestir como uma mini rockstar, e ele, como o meninão que o pai é. Então percebeu que tudo que estava falando era uma grande besteira, porque ela nunca seria mãe mesmo.
E por um longo tempo nada de muito interessante aconteceu, exceto que um cachorrão tentou latir para Zukia, e ela saiu correndo atrás dele e o perseguiu por vários minutos. Doida de pedra, a garota pensou. Zukia olhou para ela como se dissesse "Aprendi com você", mas, de novo, não surtiu muito efeito.
Agora era ele que passava, e, por um segundo, ela tentou sumir - mas, de que adiantaria, mesmo que eu conseguisse? É o que eu quero. Quero vê-lo. Quero que ele me veja também. Então, que diabos estou tentando fazer?
Bom, ele olhou, de qualquer forma. E pareceu tentar sumir, também. Não tendo muito mais sucesso que ela, sorriu minimamente. Caminhou até a calçada com passos tímidos e sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio, os dois fitando Zukia, que parecia achar muita graça na situação. Para ser justa, acho que também estaria rindo. Bem! Não estamos indo a lugar algum. Acho que seria melhor que eu falasse. Talvez algo como "Oi". "Oi" definitivamente funcionaria. É o que vou fazer. Um, dois, três.
Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Onze, doze - ah, não seja estúpida agora. Certo. Assim que eu disser "já". Então, um, dois...
Saiu antes. "Oi." Ele olhou meio surpreso. Permaneceu quieto. Ela tentou imaginar se seu "Oi" saíra com uma entonação errada, mas parecia muito certo. Sentiu o rosto arder e olhou para Zukia outra vez. E demorou muito tempo para assimilar o que ele disse depois disso.
"Eu também gosto de você."
Porque aquele era o dia dele, afinal.
Tinha perdido o celular, a carteira de identidade, um diamante negro recém comprado e algumas moedas que não vieram no troco. Sentada na calçada, fones gritando no ouvido, tênis sujos de lama, cabelos desgrenhados, ela fingia pra si mesma que mantinha uma séria conversa com seu furão fêmea. Estava prestes a perguntar "mas me diga, Zukia: você roubou ou não meu chocolate?", quando um grupo de estudantes passou fazendo bagunça do outro lado da rua. Ela sabia que estavam fazendo uma grande bagunça mesmo, porque podia ouvir os gritos mesmo com o volume do mp4 cansado no máximo.
Que bobos, ela pensou, sentindo um súbito orgulho por sua maturidade. Depois lembrou de como deveria estar parecendo, o esmalte descascando e delineador absurdamente borrado. Zukia lançou um olhar severo à dona, como se estivesse pensando a mesma coisa - especialmente porque estava deitada sobre um jeans muito sujo e surrado, que obviamente não estava à sua altura. A garota não deu muita atenção. "Desculpe, amor", ela murmurou, "mas hoje não é o seu dia." Depois começou a cantar (muito desafinada, é bom que se diga), de forma que nunca viu a cara de horrorizada de Zukia.
A música se encaixa muito bem, ela pensou distraidamente. Apropriada. É essa a palavra.
Um fumante acabara de passar. Ela o olhou, meio admirada, meio contrafeita. Admirada porque ele parecia a figura mais sedutora e inteligente do mundo fumando. Contrafeita porque nunca gostou de fumaça. E quem gosta, afinal?
Agora uma grávida. Nunca terei filhos. Vou ser uma pessoa inteligente e usar pílulas e camisinhas. Arranco meu útero, se necessário. Pensou tudo isso porque a barriga dela estava muito grande. Depois achou que um só seria legal. Ou gêmeos. Gêmeos com ele seriam lindos. Uma menina e um menino. Ela com os cabelos dele e os meus olhos; ele com os meus cabelos e os olhos dele. E os dois com bochechinhas vermelhas. Alice é um nome legal. Charlie, também. E ela vai se vestir como uma mini rockstar, e ele, como o meninão que o pai é. Então percebeu que tudo que estava falando era uma grande besteira, porque ela nunca seria mãe mesmo.
E por um longo tempo nada de muito interessante aconteceu, exceto que um cachorrão tentou latir para Zukia, e ela saiu correndo atrás dele e o perseguiu por vários minutos. Doida de pedra, a garota pensou. Zukia olhou para ela como se dissesse "Aprendi com você", mas, de novo, não surtiu muito efeito.
Agora era ele que passava, e, por um segundo, ela tentou sumir - mas, de que adiantaria, mesmo que eu conseguisse? É o que eu quero. Quero vê-lo. Quero que ele me veja também. Então, que diabos estou tentando fazer?
Bom, ele olhou, de qualquer forma. E pareceu tentar sumir, também. Não tendo muito mais sucesso que ela, sorriu minimamente. Caminhou até a calçada com passos tímidos e sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio, os dois fitando Zukia, que parecia achar muita graça na situação. Para ser justa, acho que também estaria rindo. Bem! Não estamos indo a lugar algum. Acho que seria melhor que eu falasse. Talvez algo como "Oi". "Oi" definitivamente funcionaria. É o que vou fazer. Um, dois, três.
Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!
Onze, doze - ah, não seja estúpida agora. Certo. Assim que eu disser "já". Então, um, dois...
Saiu antes. "Oi." Ele olhou meio surpreso. Permaneceu quieto. Ela tentou imaginar se seu "Oi" saíra com uma entonação errada, mas parecia muito certo. Sentiu o rosto arder e olhou para Zukia outra vez. E demorou muito tempo para assimilar o que ele disse depois disso.
"Eu também gosto de você."
Porque aquele era o dia dele, afinal.
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