Serpeloni's Blog
O choro de um palhaço

Eu nasci no palco. Dele, sou um mero palhaço; e, apesar disso, ser palhaço me põe acima de qualquer julgamento. Ninguém julga um palhaço, ninguém julga um brinquedo sem vida. A um palhaço, não é concedido viver.
Pois quem quer ver um palhaço a chorar? Quem se importa com um palhaço fora do palco? Quem choraria se o palhaço morresse? Mas eu também tenho cicatrizes. Dentro do meu peito de aço, por trás do meu sorriso ilusório, eu também sei sofrer.
Então sou eu, palhaço, e vou ao palco, e faço rir, e recebo aplausos que não entendem minha causa. Deslizo, rodopio, dou cambalhotas, me equilibro na minha própria mentira. Finjo ser o que nunca serei. E ninguém percebe que o meu sorriso não chega aos olhos. E acham que as lágrimas fazem parte da fantasia. Talento ou dissimulação? Pouco importa. Eu, palhaço, brinquedo da plateia. Vestido de fantasias e ilusões, pintado de imaginação. Eu sou o que a plateia não pode ser. Eu sou o que a plateia precisa que eu seja.
E precisam do meu sorriso. Não sabem a dor que isso custa, mas precisam do meu sorriso. Sou eu, palhaço, e esqueço de mim, e escondo a dor sob a máscara. Sou eu, palhaço, e sofro minha dor escondido.
Tem fim a pantomima. O show, por ora, terminou.
Volto aos bastidores, volto pra dentro de mim. E arranco a máscara. E faço limpa a minha face. E não sou mais palhaço. Sou humano, e choro.

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Conclusão final

Já sorri em meio ao caos, já chorei de felicidade. Já gritei até perder a voz. Me calei por muitas vezes. Contei os segundos, perdi a noção do tempo. Já invejei os mortos e tive pena dos que vivem. Já quis que falassem mal de mim. Achei que não merecia elogios. Brindei aos que me odiavam, ri do amor que por mim nutriam. Já banquei a insensível, já fingi chorar. Forcei o esquecimento, quis lembrar e não consegui. Já tive orgulho quando não devia. Concordei, discordei, menti. Vivi fantasias. Escrevi cartas que nunca foram entregues. Tive amores sem saber.
Aprendi que a beleza da vida está nas efemeridades. Que se uma flor nunca murchasse, não teríamos medo de perdê-la.
Entendi que a verdade depende do ponto de vista, e que a humanidade é míope.
Finalmente, percebi que o amor é o grande ladrão do mundo, e que dele somos todos reféns.

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Só enquanto eu respirar

Obrigada por estar lá, mesmo quando eu não pedi. Por estender a mão e me deixar pegar o braço. Por ser um ponto de fantasia no meio da realidade. Por me ensinar a não chorar. Por me afastar de mim. Por permitir que eu te tenha como necessário.
Você me ensinou a continuar. Continuar; nem perder nem vencer, apenas prosseguir.
Foi por você que eu suportei o peso da vida. E suporto, e vou em frente, ignorando o futuro que me espera.
Obrigada, meu anjo. Por viver comigo, por sorrir comigo, por estar comigo. Por ser.
Eu preciso de você. Mas só enquanto eu respirar.

OBS.: Esse texto vive desde 2008 no submundo do meu fichário, e eu o odeio. Postei aqui somente pra (1) poder finalmente jogar o papel fora e (2) ocupar espaço.

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Ruínas

Eu pensei que estava livre. Finalmente liberta da minha necessidade obsessiva de você.
Como eu me enganei, amor...
Um sorriso foi mais que o suficiente, mais do que eu estaria pronta para aguentar. Desencadeou uma torrente de emoções que eu pensara estarem mortas. Adormecidas, ao menos. Mas elas estiveram lá, todo esse tempo, esperando.
Eu tive raiva, amor.
Odiei sentir outra vez, mais uma vez, tudo o que eu jurara nunca mais sentir. Eu quebrei minha promessa. Eu me destruí quando você sorriu. E eu poderia destruir o mundo inteiro, se você quisesse. Eu não me importaria.
Foi injusto, amor.
Tudo estava tão bem. Em seu devido lugar. Meu nome sem manchas ainda gravado; meu coração reconstruído ainda batendo; você ainda longe de mim.
E com um sorriso, você mutilou minha alma. Minha alma, ou o que restara dela.
Um sorriso, e tudo à minha volta desmoronando.
Um sorriso, e tudo à minha volta explodindo.
Um sorriso. Eu em ruínas.
Um sorriso...
E então, eu soube: eu estava à sua mercê.
Eu sempre estive, meu amor.

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Declaração silenciosa

Tantos outonos melancólicos e invernos nostálgicos depois, eu posso dizer que tentei. Tentei pôr em palavras o calor do seu abraço, a musicalidade da sua voz, o brilho do seu sorriso e o quanto ele ilumina meu dia. O resultado é sempre o mesmo: frustração e orgulho. Porque eu não consigo te explicar. Porque você é inexplicável.
Mas se então eu conseguisse narrar minuciosamente a sensação de te ter por perto, se eu pudesse solidificar um sentimento imensurável, de que serviria? Você não estaria aqui para ler. As palavras que o coração não diz tornam-se inúteis uma vez postas no papel. E você não leria.
Você nunca saberia que eu te amei em silêncio.

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Short Story II

Esse texto NÃO é a continuação de Short Story I.
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Era uma vez uma garota e um garoto. Eles não eram irmãos, mas muita gente achava que eram. Se pareciam muito: tinham a mesma idade e o mesmo sorriso e sempre se sujavam quando tentavam comer cachorro-quente.
De vez em quando, ele olhava o rosto dela com assombro e admiração, como quem aprecia uma pintura fantástica rara que de repente apareceu bem do seu lado no sofá. Porque ela era realmente fascinante, embora ele nunca admitisse isso, é claro. Não admitia porque ela nunca olhava pra ele. E ele sabia disso, porque passava muito tempo olhando furtivamente pra ela, e os olhares nunca se encontravam. Acabava por aceitar que, provavelmente, eram realmente irmãos. Não de sangue, talvez. Mas algo como amigos que jamais deveriam olhar um para o outro com olhos de um amor que nunca fora fraterno.
O que ele não podia imaginar é que os olhos dela eram um diário. Um precioso livrinho que nunca ficava sem ela por perto. E era através de páginas que ela olhava pra ele. Mas ele não sabia. Ele nunca saberia; não se dependesse dela. E, de qualquer forma, se soubesse, qual seria a vantagem? Ela não achava que ele pudesse olhar pra ela. Era um absurdo - um crime - imaginar ou suspeitar tal coisa.
Permaneceram em mútua ignorância por longos anos. Cresceram. Muitos invernos passaram sem que eles percebessem. Até que, numa noite chuvosa como outra qualquer, onde tudo parecia absolutamente normal e não havia indício algum de que coisas estranhas poderiam acontecer, ela acordou de repente. E, por alguma razão, sabia que devia esperar que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse.
Deixou a casa sem pressa, caminhando como se a grama onde os pés nus pisavam fosse sagrado. Por algum tempo, nada aconteceu. Então o portãozinho de madeira sem adornos se abriu. Ele não parecia surpreso de vê-la ali - talvez com medo, ela não saberia dizer -, mas demorou para se aproximar. Carregava um pequeno livro, o diário dela, na mão trêmula. Quando já estava perto o suficiente para tocar seu rosto, ele levantou o diário como se o exibisse, e falou, e sua voz parecia música.
"Eu sempre olhei pra você."

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Suficiência.

Eu me refiz. Porque eu caí, mas eu levantei, e eu me refiz. E refazer-me bastava.
Olhar pra trás me traria muito mais dor do que eu poderia aguentar, então eu prossegui. E caminhar sem você foi pior do que eu podia imaginar. O conhecimento da sua covardia era minha única força; sua traição me impulsionou. E era o que bastava.
Será que eu posso dizer que vivi depois de você? Eu acho que sim. Eu tive ombros onde chorar, eu tive ouvidos para desabafar - mais do que isso, eu tive amores. Haveria mais o que pedir? Não. Eu os tive, e apenas o seu olhar bastava.
A estrada foi mais tortuosa do que parecia, mas eu continuei. Não mais por você. Eu continuei por mim, pela minha honra, pelo meu nome. Pela minha alma. E só isso era suficiente. Só isso bastava.
Cheguei ao fim. Eu, que pensei que não sairia do lugar onde você me deixou; eu cheguei ao fim.
Porque eu sou diferente de você, e é essa diferença que me faz melhor do que eu jamais poderia ser. Me faz melhor que você. E isso, meu querido - isso basta.

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10 words story

Foi assim que, silenciosamente, Ela e Ele confessaram mútua dependência.

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