Short Story II
Era uma vez uma garota e um garoto. Eles não eram irmãos, mas muita gente achava que eram. Se pareciam muito: tinham a mesma idade e o mesmo sorriso e sempre se sujavam quando tentavam comer cachorro-quente.
De vez em quando, ele olhava o rosto dela com assombro e admiração, como quem aprecia uma pintura fantástica rara que de repente apareceu bem do seu lado no sofá. Porque ela era realmente fascinante, embora ele nunca admitisse isso, é claro. Não admitia porque ela nunca olhava pra ele. E ele sabia disso, porque passava muito tempo olhando furtivamente pra ela, e os olhares nunca se encontravam. Acabava por aceitar que, provavelmente, eram realmente irmãos. Não de sangue, talvez. Mas algo como amigos que jamais deveriam olhar um para o outro com olhos de um amor que nunca fora fraterno.
O que ele não podia imaginar é que os olhos dela eram um diário. Um precioso livrinho que nunca ficava sem ela por perto. E era através de páginas que ela olhava pra ele. Mas ele não sabia. Ele nunca saberia; não se dependesse dela. E, de qualquer forma, se soubesse, qual seria a vantagem? Ela não achava que ele pudesse olhar pra ela. Era um absurdo - um crime - imaginar ou suspeitar tal coisa.
Permaneceram em mútua ignorância por longos anos. Cresceram. Muitos invernos passaram sem que eles percebessem. Até que, numa noite chuvosa como outra qualquer, onde tudo parecia absolutamente normal e não havia indício algum de que coisas estranhas poderiam acontecer, ela acordou de repente. E, por alguma razão, sabia que devia esperar que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse.
Deixou a casa sem pressa, caminhando como se a grama onde os pés nus pisavam fosse sagrado. Por algum tempo, nada aconteceu. Então o portãozinho de madeira sem adornos se abriu. Ele não parecia surpreso de vê-la ali - talvez com medo, ela não saberia dizer -, mas demorou para se aproximar. Carregava um pequeno livro, o diário dela, na mão trêmula. Quando já estava perto o suficiente para tocar seu rosto, ele levantou o diário como se o exibisse, e falou, e sua voz parecia música.
"Eu sempre olhei pra você."
De vez em quando, ele olhava o rosto dela com assombro e admiração, como quem aprecia uma pintura fantástica rara que de repente apareceu bem do seu lado no sofá. Porque ela era realmente fascinante, embora ele nunca admitisse isso, é claro. Não admitia porque ela nunca olhava pra ele. E ele sabia disso, porque passava muito tempo olhando furtivamente pra ela, e os olhares nunca se encontravam. Acabava por aceitar que, provavelmente, eram realmente irmãos. Não de sangue, talvez. Mas algo como amigos que jamais deveriam olhar um para o outro com olhos de um amor que nunca fora fraterno.
O que ele não podia imaginar é que os olhos dela eram um diário. Um precioso livrinho que nunca ficava sem ela por perto. E era através de páginas que ela olhava pra ele. Mas ele não sabia. Ele nunca saberia; não se dependesse dela. E, de qualquer forma, se soubesse, qual seria a vantagem? Ela não achava que ele pudesse olhar pra ela. Era um absurdo - um crime - imaginar ou suspeitar tal coisa.
Permaneceram em mútua ignorância por longos anos. Cresceram. Muitos invernos passaram sem que eles percebessem. Até que, numa noite chuvosa como outra qualquer, onde tudo parecia absolutamente normal e não havia indício algum de que coisas estranhas poderiam acontecer, ela acordou de repente. E, por alguma razão, sabia que devia esperar que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse.
Deixou a casa sem pressa, caminhando como se a grama onde os pés nus pisavam fosse sagrado. Por algum tempo, nada aconteceu. Então o portãozinho de madeira sem adornos se abriu. Ele não parecia surpreso de vê-la ali - talvez com medo, ela não saberia dizer -, mas demorou para se aproximar. Carregava um pequeno livro, o diário dela, na mão trêmula. Quando já estava perto o suficiente para tocar seu rosto, ele levantou o diário como se o exibisse, e falou, e sua voz parecia música.
"Eu sempre olhei pra você."
3 comentários



